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Política

Entre a esquerda e a direita, quem está pensando no Brasil?

A polarização transformou adversários em inimigos, ideologias em verdades absolutas e a política em uma disputa permanente de poder. Mas, enquanto os lados se enfrentam, quem está discutindo as soluções de que o país realmente precisa?

Por Rafael Galvão

· 6 min de leitura

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Ilustração gerada por IA do Congresso Nacional, com grupos em lados opostos simbolizando a polarização política
A polarização política brasileira em imagem ilustrativa criada com inteligência artificial para a coluna do Portal SE360.

Tenho acompanhado com atenção os rumos da política brasileira e uma questão tem provocado minhas reflexões: será que estamos realmente discutindo o futuro do Brasil ou apenas escolhendo de que lado queremos estar?

A política sempre foi marcada por diferenças ideológicas. E isso é absolutamente natural em uma democracia. O problema começa quando essas diferenças deixam de representar projetos distintos de sociedade e passam a funcionar como uma espécie de torcida organizada, na qual reconhecer um acerto do adversário parece ser uma traição.

Hoje, para muita gente, pouco importa se determinada proposta é boa ou ruim. Antes de analisá-la, procura-se saber quem a apresentou. Se veio do seu grupo político, merece aplausos. Se veio do outro, precisa ser combatida.

É uma inversão preocupante. A ideologia, que deveria orientar o pensamento, acaba substituindo a capacidade de pensar.

Uma pesquisa Datafolha divulgada em outubro de 2026 reforça essa percepção: 78% dos brasileiros consideram que o país vive uma situação de polarização política. Não estamos falando de uma impressão isolada, mas de um sentimento amplamente compartilhado pela sociedade.

E é justamente nesse ambiente que acredito ser necessário fazer uma análise mais profunda sobre o que a esquerda e a direita realmente representam.

A esquerda possui méritos que precisam ser reconhecidos. Em um país historicamente desigual, defender políticas de inclusão, acesso à saúde, educação pública e proteção social é uma necessidade concreta. Milhões de brasileiros dependem de serviços e programas públicos para ter condições mínimas de dignidade.

Os números comprovam a relevância dessa atuação. Segundo o IBGE, a pobreza atingia 23,1% da população em 2024. Sem considerar os rendimentos provenientes de programas sociais, esse percentual chegaria a 28,7%.

Mas reconhecer essa importância não significa ignorar os riscos de um Estado que gasta mais do que consegue sustentar, cria estruturas burocráticas excessivas ou utiliza recursos públicos sem eficiência. Não existe política social duradoura sem capacidade econômica para financiá-la.

A direita, por sua vez, também apresenta argumentos consistentes. Um país precisa de empresas fortes, investimentos, segurança jurídica, liberdade para empreender e um ambiente econômico capaz de gerar empregos e oportunidades.

Não há desenvolvimento sustentável sem produção de riqueza. E essa riqueza depende, em grande medida, de quem trabalha, produz, investe e assume riscos.

Entretanto, acreditar que o mercado, sozinho, resolverá todas as desigualdades brasileiras também seria uma simplificação perigosa. Existem regiões e parcelas da população que necessitam de investimentos públicos justamente porque o retorno econômico imediato não é suficiente para atrair a iniciativa privada.

A educação de uma criança, o atendimento de saúde de uma família vulnerável e a infraestrutura de uma comunidade não podem depender exclusivamente da sua capacidade de consumo.

É aqui que encontro uma das maiores contradições do debate político brasileiro: a esquerda fala muito sobre distribuir riqueza, enquanto a direita enfatiza a necessidade de produzi-la. Mas o Brasil precisa fazer as duas coisas.

É evidente que existem diferenças entre as correntes e que nenhuma delas se resume a essas definições. Ainda assim, essa comparação revela algo fundamental: crescimento econômico e justiça social não precisam ser tratados como objetivos incompatíveis.

O Brasil registrou crescimento de 2,3% do Produto Interno Bruto em 2025, segundo o IBGE. O resultado é importante, mas não basta olhar apenas para o tamanho da economia. Precisamos perguntar como esse crescimento chega à vida das pessoas, se gera empregos de qualidade e se permite financiar serviços públicos sem comprometer as próximas gerações.

Não por acaso, o Fundo Monetário Internacional recomendou, em julho de 2026, que o Brasil fortalecesse suas contas públicas, melhorasse a eficiência dos gastos e preservasse a proteção social direcionada aos mais vulneráveis.

Observem que essas recomendações não cabem exclusivamente no discurso tradicional de um dos lados. Elas combinam responsabilidade econômica com compromisso social.

E talvez seja exatamente dessa capacidade de combinar soluções que o Brasil mais necessite.

O perigo de transformar a política em uma guerra

A polarização traz uma consequência que considero ainda mais preocupante: a perda da capacidade de avaliar os governantes com independência.

Quando defendemos um político incondicionalmente, corremos o risco de justificar seus erros. Quando rejeitamos alguém apenas por sua posição ideológica, podemos deixar de reconhecer decisões acertadas.

Essa lógica enfraquece a cobrança por resultados e favorece discursos que mobilizam emoções, mas nem sempre oferecem respostas concretas.

E faço uma distinção importante: reconhecer acertos de adversários não significa aceitar corrupção, violência, autoritarismo ou ataques à democracia. Esses comportamentos precisam ser condenados com os mesmos critérios, independentemente de quem os pratique.

A pluralidade política é indispensável. A ausência de responsabilidade, não.

Enquanto isso, os problemas reais continuam esperando soluções.

O cidadão que aguarda atendimento em uma unidade de saúde não deveria precisar saber qual partido governa para ter seu direito garantido. O jovem que procura o primeiro emprego precisa de oportunidades, não de uma guerra de narrativas. O empresário que enfrenta dificuldades para manter seu negócio necessita de condições para produzir. A família que convive com a violência quer segurança.

Esses desafios estão presentes em todo o Brasil, inclusive em Sergipe, e não podem ser resolvidos apenas com discursos ideológicos.

O que deveríamos exigir de qualquer governo, independentemente de sua orientação política, é relativamente simples de compreender, embora difícil de executar: crescimento econômico sustentável, redução das desigualdades, qualidade dos serviços públicos, segurança, respeito às instituições e responsabilidade com o dinheiro da população.

Um governante não deve ser considerado bom apenas porque pertence ao nosso campo político. Precisa demonstrar competência, integridade e resultados.

Precisamos de menos paixão pelos políticos e mais compromisso com o país

Não defendo que as pessoas abandonem suas convicções. Pelo contrário. Ter princípios, compreender as diferenças entre modelos de desenvolvimento e participar da vida política são atitudes fundamentais para o fortalecimento da democracia.

O que questiono é a ideia de que precisamos concordar com tudo o que vem do nosso lado e rejeitar automaticamente tudo o que vem do lado oposto.

Podemos defender políticas sociais e responsabilidade fiscal. Incentivar o empreendedorismo e fortalecer a educação pública. Cobrar rigor no enfrentamento à criminalidade e exigir respeito aos direitos fundamentais.

Não se trata de criar artificialmente um meio-termo para todas as questões. Existem propostas incompatíveis, divergências legítimas e princípios que não podem ser negociados. Trata-se de avaliar cada decisão pelo seu mérito, suas consequências e sua capacidade de melhorar a vida das pessoas.

Talvez um dos maiores desafios do Brasil seja superar a ideia de que a vitória política de um grupo representa, necessariamente, uma vitória para a sociedade.

Nem sempre representa.

A história brasileira registra acertos e erros em governos de diferentes orientações. Por isso, precisamos estar dispostos a comparar resultados com seriedade, considerando as circunstâncias econômicas, as crises enfrentadas e as condições herdadas por cada administração.

Em vez de perguntar apenas quem governou, devemos perguntar como governou e o que efetivamente entregou.

Minha reflexão é simples: o Brasil não precisa de cidadãos que concordem em tudo. Precisa de cidadãos que não abram mão de pensar por conta própria.

A esquerda não é dona da justiça social. A direita não é dona do desenvolvimento econômico. E nenhuma corrente possui o monopólio da honestidade, da competência ou do compromisso com o país.

No fim, a política deveria ser o instrumento utilizado para melhorar a sociedade, e não um campo de batalha permanente entre brasileiros.

Porque, enquanto discutimos quem venceu a disputa entre esquerda e direita, talvez estejamos deixando de fazer a pergunta mais importante:

E o Brasil, está ganhando o quê?

Fontes consultadas: Datafolha (16/10/2026); IBGE, PIB de 2025; IBGE, Síntese de Indicadores Sociais; FMI, consulta de 2026.

Leia também a cobertura de Política no SE360.

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